domingo, 5 de março de 2017

A mulher de preto

Vamos falar sobre depressão?

Há alguns meses assim como todos sabem conheci a depressão de perto. Costumo chamá-la de mulher de preto pois foi assim que ela se mostrou pra mim.
A depressão é uma doença, é grave e se manifesta de diversas formas.
Algumas pessoas acabam perdendo toda uma vida por conta da depressão. Se trancam em casa. Saem de empregos. Deixam de estudar...
Enquanto outras decidem travar uma luta dura e incansável para continuar a viver.
Eu participei do segundo grupo e por isso tive de ouvir "Você não está depressiva, só triste", "Se você tivesse depressão não estaria no bar", "Se estivesse depressiva de verdade não estaria rindo". O que algumas pessoas não sabem é que esconder, disfarçar e até mesmo negar a depressão é uma atitude extremamente comum e muito perigosa.
Na busca por uma fuga, abusava do álcool, que trazia alívio por alguns momentos. No ápice da ansiedade e da angústia procurei no cigarro um calmante. Em vão.
A bebedeira passava, o cigarro acabava, as baladas chegavam ao fim e a mulher de preto ainda estava dentro de mim, gritando horrores a meu respeito. Me insultando. Me lembrando tudo o que havia acontecido. Me dizendo incessantemente como morrer seria melhor.
Repetindo sem se cansar que a vida não tinha mais sentido e que nada e ninguém sentiria a minha falta porque, naquele momento, eu era um peso morto. Um fardo que todos estavam a carregar.
A mulher de preto não aparece nas fotos bonitas que tirei nesse período. Não aparece  nos copos de bebida na minha mão, exibidos nas mais diversas festas que frequentei.
Mas ela estava lá.
Me assombrando.
Tirando o meu sono, meu apetite, meu ânimo, minha vontade de viver. Ela cobria toda e qualquer esperança com lembranças obscuras e tristes. Ela acabava com os pequenos momentos de alegria apertando minha garganta num ataque de pânico por não ser feliz.
A mulher de preto lutou contra mim, dia após dia. Ela quis me convencer que ninguém ligava. Ela sussurrava ao meu ouvido que todos achavam que eu estava fingindo, que ninguém acreditava que ela existia.
A mulher de preto é cruel.
Todos os dias eu repeti que ela estava mentindo. Dias e mais dias eu chorei implorando que ela me deixasse em paz.
Dia após dia travamos uma batalha dolorida e pesada.
Mas eu venci.
Venci porque tive apoio. Venci porque recebi amor. Venci porque acreditaram em mim, as pessoas que eu precisava ter ao meu lado.
Venci porque não me neguei ajuda, não neguei sua presença...
Venci porque mesmo caindo, me levantei e a enfrentei e não dei ouvidos aos comentários de quem não podia ajudar e acabava atrapalhando.
Quando eu contava a minha história e as pessoas faziam perguntas, insinuando a minha culpa pelos erros alheios... "Pq não mudou seu status no facebook?", "Pq ñ exigiu conhecer a família?", "Pq deixou tão livre?", "Pq vc confiou tanto?". A mulher de preto ria.
Quando me diziam que a vida continuaria sem a minha mãe e que isso era o ciclo natural da vida, quando diziam "Pq mesmo não trataram ela antes?", "Tantos anos e ela nunca fez um tratamento decente?", "Pq demorou tanto pra fazer o exame?"...  A mulher de preto crescia e batia na minha cara. Ela se aproveitava de tudo... E ela ainda existe. Só que agora calou-se.
A mulher de preto ronda mas agora tem medo porque sabe que não vai vencer facilmente.
Ela fica a espreita e me ajuda a lembrar sempre... QUE SOBRE A DOR ALHEIA, SABEMOS MUITO POUCO, PORTANTO, NÃO JULGUE NINGUÉM. NÃO CALCULE A DOR DO PRÓXIMO. E SE NÃO PUDER TER EMPATIA, MANTENHA-SE LONGE.

Depressão mata. Cuide de você e atente-se aos sinais de quem você ama. Uma palavra, um abraço, um olhar... Pode ser decisivo entre enfrentar ou deixar-se morrer.
Renara Moreira.